Folheando O Estado de S. Paulo (22/03/2008), um jornal conservador, o que em geral implica que sua linguagem também o seja, encontro um número relativamente grande de construções com gerúndio. Não com gerúndio simples, como o título desta coluna, mas precedidos do verbo estar. Na página 2, o título da coluna da esquerda, a primeira, de autoria de Fabio Ubaldo Coelho, tem como título ESTÁ CHEGANDO A HORA (seu tema é o "grau de investimento" - ou "investment grade", muito mais confiável - , um título que o Brasil está prestes a receber das agências que não viram nada do que estava acontecendo (!) nos bancos americanos).
Forma análoga, no mesmo artigo, é "está fazendo a parte dele". Mas há outras, que uma cruzada anti-gerúndio colocaria indevidamente no mesmo saco: "elegendo-a uma questão de Estado", "falindo a empresa", "atribuindo aos investidores", "acabam adotando fundamentos".
Vou para a coluna seguinte e anoto: "a cidade está parando", "o tema foi-se consolidando", "o morador da cidade foi-se dando conta". Viro a página e lá está "de quem está diariamente perdendo tempo", "processos estão demorando". Na página seguinte, encontro "estão modificando substancialmente", "Lula está alterando fortemente o orçamento ... e neutralizando", "estamos gastando vela boa com defunto ruim".
Parei de anotar. Cansei, como diria Ivete Sangalo (aliás, por que não cansa?).
Eu nem deveria mais falar desse assunto, acho. Mas leitores insistem, fazendo perguntas, às vezes tortas. Além disso, percebo em outras conversas (debates em TVs em que participantes decidem mostrar que estão atentos às questões de nossa língua...) que todos os gerúndios se tornaram alvo de crítica. Ou da suspeita de terem invadido o português vindos do inglês. Na cabeça de muita gente, títulos como Facilitando a alfabetização deveriam ser proibidos. No português legítimo, não haveria gerúndio algum. Afinal, ouviu-se dizer que os portugueses, donos da língua por razões óbvias, não diriam nunca, jamais, algo como "folheando", mas sim "folhear".
Pois todos os gerúndios acima são absolutamente normais. Já escrevi aqui mesmo que os casos considerados problemáticos pouco têm a ver propriamente com os gerúndios, já que são sempre do tipo poder + estar + gerúndio (possa estar jogando) ou ir + estar + gerúndio (vou estar enviando) ... Os exemplos acima, com estar + gerúndio apenas, nunca teriam chamando a atenção de ninguém. O medo nasceu dessa outra combinação.
Aliás, como combater todos os gerúndios, se as reduzidas de gerúndio são um capítulo de qualquer gramática? Por que os pretensos "sábios" o esquecem e suspeitam de invasão do inglês? Dei uma espiada na gramática de Cunha e Cintra e lá está, como exemplo, uma frase do Machado: "Chegando à rua, arrependi-me de ter saído". Outra dele, citada logo a seguir, é "O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e espanadores". Também constam "dando com a mão", "marchando a quatro de fundo", "Vi um grupo de homens, conversando", "Meu coração é um pórtico partido / dando excessivamente sobre o mar". Acrescente-se que as três últimas são de Saramago, Pepetela e F. Pessoa. O primeiro e o último são portugueses, Pepetela é africano...
E o que dizer de "em se plantando, tudo dá", do velho Caminha e de "cantando espalharei por toda a parte", de Camões?
Deveria ser claro que o dito gerundismo não tem nada a ver gerúndio. E fecho a lista de exemplos da gramática com "Pensando bem, tudo aquilo era muito estranho" de Augusto Meyer, porque eu poderia dizer o mesmo disso tudo.
Sírio Possenti
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